Forte do Barbalho

O Forte do Barbalho foi construído como peça principal para proteger o acesso norte da Cidade, apoiado pelo Forte de Santo Antônio Além do Carmo. Leva, por tradição, o nome do mestre de campo Luiz Barbalho Bezerra, que se destacou na luta contra os holandeses. Tem origens por volta de 1638, mas o Forte atual é do início do século 18.

O historiador baiano Rocha Pita, contemporâneo da época da construção do Forte atual, indica (ca. 1724) que seu nome seria Fortaleza de Nossa Senhora do Monte Carmelo. Pita também cita que ela já era, então, conhecida como a Fortaleza do Barbalho.

O Coronel D. José Miralles, em sua Historia Militar do Brazil (ca. 1762) indica que esse era o Forte de Nossa Senhora do Monte do Carmo.

O nomes forte e fortaleza costumavam ser usados indistintamente pelos engenheiros militares, mas o do Barbalho possui a inscrição "Forte" em sua portada, posterior à referência de Pita. Não se sabe mesmo qual seria o nome oficial do Forte ou se existiu um. Os portugueses eram severos com a burocracia contábil, mas não com os nomes de suas edificações, logradouros e divisões territoriais. José Antonio Caldas, por exemplo, chamava Fortaleza do Barbalho, mas também usou Forte do Barbalho. E tem a citação curiosa do engenheiro militar Nicolau Abreu de Carvalho, que o chamou de Forte de S. Nicolau Bispo, em texto de 1637, sobre uma inspeção desse Forte, conforme pesquisa de Mário M. de Oliveira (As Fortificações Portuguesas de Salvador, 2004). Mas o fato de que o engenheiro tinha o mesmo nome do santo, torna a referência duvidosa.

A área onde fica o Forte pertencia aos carmelitas e nela existia um abatedouro de gado, o Sítio Matança. Os carmelitas cederam o terreno para a construção do Forte. No século 19, essa área era conhecida como Campo do Barbalho e existia também o Largo do Barbalho, atualmente ocupado pelo ICEIA (veja em mapa de 1894). Hoje, o nome é dado ao grande bairro do Centro Antigo de Salvador.

Do final do século 16, até os anos 1630, durante a União Ibérica, Salvador sofreu algumas tentativas de invasão por ingleses, franceses e holandeses. Chegou a ser ocupado pelos holandeses, em 1624, mas foram expulsos no ano seguinte. Nessa época, Salvador era a grande metrópole da América Lusitana e uma das maiores e mais importantes cidades de todo o continente. Nas décadas seguintes, a primeira cidade do Brasil recebeu grande reforço de engenharia militar, tornando-se, no século 18, uma das mais bem fortificadas cidades do mundo.

O primitivo Forte do Barbalho já existia por volta de 1638, como demonstra um mapa português da época (veja ilustração abaixo), com a inscrição: Reduto que fez o mestre de campo Luis Barbalho. Era uma bateria cercada por um fosso, que abrigava algumas peças de artilharia. Foi feito de torrão, um tipo de material de construção feito com terra aglutinada e endurecida.

Segundo S. Blake, Luiz Barbalho Bezerra nasceu em Olinda, em 1600 (?), era fidalgo da Casa Real, Comendador da Ordem de Cristo e mestre de campo. Escreveu Poesias lyricas e o idílio Itaé. Destacou-se no combate aos holandeses e faleceu no Rio de Janeiro, em 15 de abril de 1644, como governador daquela Capitania.

O Conde de São Lourenço, o governador, na época, citou que Luiz Barbalho tomou a construção do reduto a seu cuidado, trabalhando com mil homens noite e dia, tão acuradamente, que em breve o concluiu. Saindo de seu reduto, Barbalho investiu seus homens contra a retaguarda de Nassau, que recuou desbaratada, decidindo a vitória, na noite de 25 de maio (Fortificações da Bahia, J.S. Campos, 1940).

Uma inscrição em uma lápide, na portada do Forte (colocada em 1938 pelo Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, imagem abaixo), cita que, aos 18 de maio de 1638, saindo deste reduto, Luiz Barbalho destroçou definitivamente as tropas de Maurício de Nassau.

Segundo Rocha Pita, Luiz Barbalho comandou 1.300 homens na campanha contra os holandeses. Desembarcou no Porto dos Touros (Rio Grande do Norte), rompeu muitos quartéis do inimigo e retornou à Bahia (Historia da America Portugueza, 1730, p.274-5).

Em 1685, o capitão João Coutinho fez um projeto para a construção de uma fortaleza definitiva, no local.

Pedro de Vasconcelos e Sousa, Governador do Brasil, de 1711 a 1714, enviou uma carta ao Conselho Ultramarino e ao Rei, declarando que o Forte do Barbalho estava em ruínas e que Joseph Lopes de Brito obrigou-se a reedificá-lo, à sua custa, e mandar fazer, em pedra e cal, todas as obras que apontou o Tenente General Engenheiro Miguel Pereira da Costa (citado por M. M. de Oliveira, As Fortificações Portuguesas de Salvador, 2004).

O engenheiro português Miguel Pereira da Costa chegou em Salvador, em 1709, e tornou-se mestre de campo de engenheiros.

Em 1712, o rei D. João V, enviou ao Brasil, o engenheiro francês Jean Massé, que elaborou uma planta de Salvador, com novas fortificações projetadas, datada de 1714. Tudo indica que Massé trabalhou em conjunto com Miguel Pereira da Costa.

Segundo Rocha Pita, o Marquês de Angeja (Pedro António de Meneses Noronha de Albuquerque), ao assumir o Governo do Brasil, em 1714, fez dar nova forma e grandeza ao Forte do Barbalho.

Em 1720, assumiu o Governo do Brasil, o Conde de Sabugosa, Vasco Fernandes Cezar de Meneses, que continuou as obras do Forte.

Segundo Oliveira, o novo Forte do Barbalho foi construído sob a direção de Miguel Pereira da Costa, sendo inaugurado em 25 de agosto de 1736. Paralelamente foram realizadas obras no Forte do Mar e no Forte de São Pedro.

Uma outra inscrição na portada (foto acima) indica que o Rei D. João V mandou edificar o Forte, concluído em 1736, durante o governo do Vice-Rei do Estado do Brasil, o Conde das Galveas, André de Mello e Castro.

É a maior fortificação construída na Bahia. Tem formato quadrangular, com cerca de 16 mil m², fora as defesas externas, que desapareceram. Construído em alvenaria de pedra e cal, com um torreão circular e três baluartes nos cantos com guarita nos vértices. Tem portada em tribuna. O muro que cerca o Forte tem, em média, cinco metros de altura, 41 troneiras e era circundado por um fosso de 2,5 metros de profundidade. Até meados do século 19, possuía uma ponte levadiça sobre esse fosso. Possui uma monumental cisterna subterrânea, coberta com abóbadas, sob o pátio de armas.

Nos anos 1780, durante o governo de Rodrigo José de Menezes e Castro, o Forte passou a abrigar os leprosos da antiga gafaria de São Lázaro do Camarão. Somente em 1878, foram transferidos para a Quinta dos Lázaros (Fortificações da Bahia, J.S. Campos, 1940).

Campos também citou que, no final do século 18, alguns oficiais franceses, trazidos da Ilha de São Tomé, foram aprisionados no Barbalho, mas com a Cidade por menagem. Posteriormente, mais prisioneiros de guerra franceses foram trazidos e seriam cerca de 300, no final de 1802.

Também, em 1802, o contrabandista inglês Thomas Lindley, sua esposa e o pessoal de sua embarcação, foram capturados, em Porto Seguro, e encarcerados em fortes de Salvador, incluindo São Pedro, Monte Serrat e Barbalho. O casal Lindley ficou no Forte São Marcelo, mas foi transferido depois para o Forte do Barbalho, com a permissão de caminhar pela Cidade. Em 5 de agosto do ano seguinte, o casal fugiu para a Inglaterra, ajudado pela Maçonaria baiana. Em 1805, Lindley teve seu livro publicado, Narrative of a Voyage to Brazil, com suas aventuras e desventuras (com versão, em português, de 1969). Ele relatou que a vista do Forte do Barbalho tinha um rico cenário e elegantes redondezas, algumas pareciam como na Inglaterra.

Em 1799, o Forte abrigava 25 peças de artilharia, conforme o Plano da Fortificação da Bahia, publicado naquele ano.

Durante a Guerra da Independência, a guarnição do Forte do Barbalho manteve-se leal aos portugueses, mas o Forte estava abandonado em Dois de Julho de 1823. Nesta data, o alferes José Adrião de Lemos, do exército brasileiro, tomou posse do Forte, hasteou a bandeira brasileira, pela primeira vez na Cidade, e salvou-a com vinte e um tiros de canhão.

Em 1837, durante a Sabinada, o Forte serviu de reduto para os revolucionários.

Em 1828, o Presidente da Província designou o Forte para servir de cadeia pública, mas tal ato somente teve efeito em 5 de agosto de 1845, após autorização do Ministério da Justiça. Em 1859, o Imperador D. Pedro II visitou os presos do local. Em 1864, a Prisão da Fortaleza do Barbalho foi extinta.

De acordo com as Falas do Presidente da Província, na Assembleia Legislativa, em 1868, o Forte do Barbalho foi colocado à disposição de imigrantes, como residência provisória, enquanto havia a demarcação de seus lotes de terra. Nesse mesmo ano, o Forte foi entregue à Associação Beneficente Dois de Dezembro para funcionar como asilo de inválidos. Em 1874, o Forte funcionava como quartel da Companhia de Inválidos. Abrigou as enfermarias do Lazareto de S. Lázaro, até 1878, quando foi transferido para a Quinta dos Lázaros.

De 1885 a 1892, funcionou como enfermaria para o tratamento dos doentes devido à epidemia de varíola.

Em 1892, o Forte voltou a funcionar como quartel de artilharia, abrigando o 5º Batalhão. Em 10 de janeiro de 1912, foi um dos fortes usados no Bombardeio de Salvador, quando abrigava também o 49º de infantaria, de Pernambuco, e cujos soldados participaram do conflito contra as forças do Estado.

Em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, o Forte abrigou marinheiros e oficiais alemães dos navios mercantes ancorados no Porto e ocupados pelo Brasil.

Em 1940, era a sede do Centro de Preparação dos Oficiais da Reserva. Nos anos '70, o Forte abrigou um centro de tortura da Ditadura Militar. Em 1982, abrigava o 7º Batalhão de Polícia Militar.

Em 2006, o Forte não tinha mais uso militar e abrigou o Projeto Casa dos Objetos Mágicos, um curso de artesanato para a confecção de objetos utilizados em rituais de candomblé.

O Forte é um patrimônio nacional, tombado pelo Iphan, em 1957. Atualmente abriga eventos culturais.

Por Jonildo Bacelar

 

 

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Casa do Comando do Forte do Barbalho.

 

Uma vista lateral do Forte do Barbalho.

 

Planta e Fachada do Forte do Barbalho, publicada por volta de 1762, na obra Cartas Topograficas - contem as plantas e prospectos das fortalezas que defendem a Cidade da Bahia de Todos os Santos e seu Reconcavo por mar e terra, de José Antonio Caldas (download), acervo do Arquivo Histórico Ultramarino, Portugal.

 

Lápide colocada em 24 de maio de 1938, na portada do Forte do Barbalho, pela comissão do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, encarregada dos festejos comemorativos do terceiro centenário da vitória sobre os holandeses.

 

O primitivo Forte do Barbalho, detalhe de um mapa português, cerca de 1638, no acervo do Algemeen Rijksarchief, em Haia (reprodução publicada em As Fortificações Portuguesas de Salvador, de Mário M. de Oliveira, 2004).

 

Inscrição na portada indicando a conclusão do Forte do Barbalho, em 1736, durante o governo do Vice-Rei (VREY) do Estado do Brasil, o Conde das Galveas. Acima, o que parece ser parte das armas imperiais, esculpida em pedra.

 

 

 

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